Imaginário

Quando o convite para falar de Paz chegou, Oscar, o Texugo, ficou surpreendido.

Há muito tempo que ele e Luz, a Andorinha, antes grandes e bons amigos, não se davam e mantinham-se afastados. “Talvez fosse a hora de acabar com aquilo”, pensou ele. A casa dela ficava a centenas de quilómetros e ele, pensou, só fazia uma viagem por uma boa razão… e não pode haver melhor razão do que falar de Paz. Acreditava que era possível e acreditar tem uma força imensa. E assim fez.

Iniciou a viagem na companhia de um Beija-Flor. Foi simpático como sempre, mas no entanto, quando lhe disse que apesar da distância que o separava de Luz, a considerava uma boa amiga e que por isso ia ter com ela levando-lhe um presente, ele ficou confuso.

Viajaram juntos, em silêncio durante um bom bocado e por fim observou:

“Não compreendo quase nada do que dizes, mas sobretudo não percebo porque falas de distância.

“É claro que falo de distância!” disse eu. “Qual é a dificuldade de perceber isso?”

Ficou calado, mas quando chegaram a casa do Mocho, o Beija Flor disse: “poderão os quilómetros separar-nos dos nossos Amigos? Se queres estar junto da tua amiga Andorinha, não estarás já lá?” E voou para junto de um lírio dos campos.

“A pequena Luz quer fazer a Paz comigo”, disse eu ao Mocho. “Ela é uma ave muito educada.”

Também ele voou em silêncio durante um bocado. Foi um silêncio amigável. Quando chegamos em casa da Águia, disse:

“Não percebo quase nada do que dizes, mas sobretudo não percebo porque dizes que a tua amiga é muito educada.”.

“É evidente que é educada,”, disse eu. “Ainda não me tratou mal, apesar de tudo quanto nos afasta. Que dificuldade há em perceber isso?” O Mocho mergulhou em mim o seu profundo olhar de âmbar, sorriu e disse: “Medita sobre isso”.

“A pequena Luz quer fazer a Paz comigo”, disse eu à Águia, “e isso é algo que muito respeito”. Juntos percorremos as montanhas, saboreando a brisa. Por fim, ela disse: “Não compreendo quase nada do que dizes, mas sobretudo não percebo essa palavra, respeito.”

“Respeito, claro”, disse eu. “Vamos celebrar as nossas diferenças e trabalhar para construir algo de bom que nos mantenha unidos. Que dificuldade há em perceber isso?”

A Águia colocou as suas asas na posição de voo de mergulho e fez uma aterragem suave na areia do deserto.
“Trabalhar para construir algo de bom que vos mantenha unidos? “Então porque não o fizeste até agora?”

“A pequena Luz quer fazer a Paz comigo”, disse eu ao Falcão. “Acho que temos de dar espaço para nos compreendermos um ao outro, para falarmos, estabelecer um diálogo que dê frutos.” Lá em baixo o deserto
deslizava distante. Por fim ele disse:

“Sabes, não compreendo quase nada do que dizes, mas sobretudo não percebo o que queres dizer com diálogo.”

“Diálogo, claro”, disse eu.

“Afastamo-nos porque não conseguimos dialogar. E depois crescemos. Que dificuldade há em perceber isso?»

Finalmente o Falcão aterrou numa praia solitária.

“Não falam? Não dialogam? Não me parece que isso seja crescer!»

Elevou-se no ar e partiu.

Sabia que a gaivota era muito sensata.

Quando a encontrou, escolheu as palavras para que quando as pronunciasse ela percebesse que tinha aprendido alguma coisa. “Gaivota”, disse por fim, “porque hei-de fazer a Paz com a Andorinha se, na realidade, nunca estive zangado com ela?”

A gaivota curvou sobre o mar, sobre os montes, sobre as ruas e pousou delicadamente no cimo de um telhado.

“Porque o mais importante”, disse, “é que tu conheças essa verdade. Que acredites. Até te aperceberes dela, até a compreenderes inteiramente, apenas a podes demonstrar com coisas pequenas e com a ajuda de outros. Mas lembra-te”, continuou ela, “o facto de não ser reconhecida, não faz com que a verdade deixe de ser verdadeira”. E partiu.

Quando deu por ela, estava junto de Luz. Abraçou-a e deu-lhe o presente que tinha trazido.

“Abre, é para ti” disse-lhe ele com um sorriso.

“Prendas de metal e vidro gastam-se num dia e desaparecem. Tenho uma prenda melhor para ti. É um anel que tu podes usar. Cintila com uma luz especial e ninguém o pode roubar, não pode ser destruído. És a única pessoa do mundo que pode ver o anel que te dou hoje, tal como eu era o único que o podia ver, quando era meu. O teu anel dá-te um novo poder.

Quando o usares, podes subir nas asas do vento e levar a Amizade, a Educação, o Respeito e o Diálogo aos quatro cantos do mundo e assim promover a Paz entre todos aqueles que te saibam escutar. Quando quiseres voltar, as tuas perguntas terão resposta e as tuas preocupações terão desaparecido. Como tudo o que não pode ser tocado pela mão, nem pode ser visto pelos olhos, o teu presente tornar-se-á mais poderoso à medida que o fores usando. Mais tarde, se o usares bem, descobrirás que não tens necessidade do anel, apenas dos gestos que fazes no dia a dia. E quando esse dia chegar, deves dar a tua prenda a alguém que a use bem e que compreenda que as únicas
coisas que contam são as coisas feitas de verdade e de alegria e não as de metal e de vidro. Acreditas? É que acreditar tem uma força imensa.”

“E agora chegou a hora de partir, de voltar novamente para o meu canto. Mas fica tranquila pois se há algo que aprendi nesta viagem é que, mesmo longe, estarei sempre contigo, pois serás sempre a minha companheira de aventuras na maravilhosa viagem de descoberta de tudo o que existe.

Voa, livre e feliz, através da eternidade e encontrar-nos-emos de vez em quando, sempre que quisermos, no meio da única Paz que nunca poderá terminar:

A celebração da Vida.

Sentes-te ca’Paz?


(Adaptado do livro Não há longe nem distância, de Richard Bach)

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